Sem Cais

Por Beatriz Macruz

Sem cais em Paraty

Foto: Beatriz Macruz

Voltei ao cais de Paraty. Nem rastro de nós dois. A porta lateral daquela casinha, a soleira e o degrau em que sentei e posei, para a foto que você tirou, não estão mais lá. Não sei bem como isso aconteceu. Estranho, não é? Também procurei o exato ângulo que a lamparina de ferro fazia com a parede toda descascada, que tornava os tijolos aparentes, da capelinha geminada naquela casa… Mas por mais que eu mirasse com a câmera, e contorcesse o corpo e o olhar, não consegui encontrar a imagem que imprimi naquela foto que eu tirei, e que você adorou.

A capela, por outro lado, estava aberta. É a Igreja de Nossa Senhora das Dores, descobri. Que nome! Viria a calhar para nós, pouquíssimo tempo depois daquela manhã que passamos no cais – ou muito menos tempo do que imaginávamos então. Não sei mais. Já faz tanto tempo assim?

Ocorreu-me que a igreja, a casa, a soleira e a lamparina estão ali para falar de um tempo também. Da passagem dele. Resistem às idas e vindas de passantes, viajantes, moradores, muitas dores, há tantos e tantos anos, que nem podemos imaginar.

Achei que ia encontrar nossa história ali, achei que além de testemunhar nossa passagem, elas a tivessem guardado para nós, caso quiséssemos voltar. Imaginava que seria muito fácil encontrar nossos fantasmas, rondando o cais, sorrindo com a beleza singela da igrejinha de portas fechadas numa manhã de sol, roubando fotos, e beijos também. Disso me lembrei: de como você gostava de roubar beijos. Nem sei por quê: eles, os meus, eram mesmo todos seus.

Na mureta de frente para o mar, um casal assistia ao pôr-do-sol. Não eram nossos fantasmas, já que nos sentamos naquela mesma mureta, com carne e osso, mas em uma manhã. Será que é por isso, por que era o fim de uma tarde, que não encontrei nós dois? Será que voltei ao cais na hora errada? A memória e as sensações talvez tenham hora para aparecer… Acho que a lembrança do pôr-do-sol, então, vai ficar só para mim.

Só que até agora não sei como aquela porta e aquele degrau não estão mais lá. No lugar está uma janela, junto das outras duas janelas que já existiam naquela manhã, e abaixo delas se estende o gramado, somente. Verde e bonito pra caramba. Nada de porta na lateral da casa, só na frente, aquela porta maior, mais grandiosa, com aquele batente que vai quase até o teto, coisa de casa colonial, coisa de porta da frente, sabe?

A soleira dessa porta principal da casinha ganhou novas tintas, as paredes também – nenhuma descascada, todas estão muito brancas, brancas demais. Contornadas pelo azul dos batentes e da soleira; mas o azul é o mesmo que da outra vez. Igual, mas mais vivo, mais fresco.

Entendi o óbvio: a casa fora restaurada, é isso. Como não podia deixar de ser; é preciso preservar o casario, é claro. Mas me pergunto, afinal, qual das duas fachadas – a da porta lateral com duas janelas na qual sentei naquela manhã, ou a das três janelas viradas para o gramado verde num fim de tarde – corresponde à fachada verdadeira. O restauro, no fim das contas, serve pra preservar o que? Terá sido a nova tintura branca que varreu, junto com os vestígios aparentes dos tijolos que sustentam toda a construção (estes sim nunca vão sair dali, sempre sustentando), a memória de nós dois?

Fechei os olhos por um segundo, apoiei as mãos na parede, e pensei que seria possível até sentir o cheiro da tinta fresca que apagou tudo para restaurar a casa. Mas senti foi o cheiro salgado da maresia, e aspirei um ar pesado de tanta poeira. Abri os olhos: notei que a poeira já encontrava novamente seu lugar nos sulcos da parede recém-pintada – as pontas dos meus dedos acinzentadas atestavam isso.

Suspirei decepcionada, e ao mesmo tempo me dei conta de como é linda essa casinha, geminada com a tal capela das dores. Foi nessa hora que senti, em um respiro, bem na volta do suspiro, a nossa emoção de então, de quando descobrimos a casinha. Meus olhos se encheram de todo esse sentimento, e com medo de transbordar, me voltei para o mar. As cores e a calma da água refletindo o céu de fim de tarde me comoveram.

Atrás de mim, a casinha continuava linda enquanto a noite caía. Vi algo que nós não pudermos ver naquela manhã: a lamparina se acendeu. Foi então que eu percebi: acho que também estou restaurada.

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