A câmera a altura de uma mulher

Por Beatriz Macruz

blu is the warmest color

Uma polêmica sobre suas longas cenas de sexo precede o filme “Azul é a cor mais quente”. Já dizia o Scorsese, que o sexo é a última fronteira do cinema. É provável que esteja certo, mas a verdade é que o cinema contemporâneo hegemônico caminhou algumas fronteiras para trás ultimamente – em termos estéticos, éticos, e, claro, políticos.

Neste(s) sentido(s), o diretor Abdellatif Kechiche resiste. Ele não arreda o pé do ritmo cadenciado que impõe à sua trama, recusa soluções e emoções fáceis, cola a câmera na protagonista Adéle, dos momentos (e ângulos) mais poéticos e plenos – e portanto agradáveis de se ver – aos mais constrangedores, e arrasadores. A estética que desemboca nas longas e lindíssimas cenas de sexo entre o casal vivido pelas atrizes Adèle Exarchopolos e Léa Seydoux, diz respeito, portanto, a uma ética do diretor para com o cinema e com suas personagens.

Ora, o que se vê é a história de amor entre estas duas mulheres, e o amor é também o sexo, o prazer, e a dor. Mais incômodos sãos os momentos de sofrimento da protagonista, tão longos e íntimos quanto os de prazer. É a vida de Adéle, suas emoções, percursos, e as vidas que se relacionam à dela que estão ali, na tela. Não há mais que isso; é na vida em que somos jogados durante o filme, e só.

Ao escrever em seu blog sobre a vida que corre e emerge nos instantes de “Azul é a cor mais quente”, o crítico Inácio Araújo lembrou de um mestre do cinema americano de outra época: Howard Hawks, que contava suas histórias a partir das “medidas do homem”. Todo o andamento da narrativa de Kechiche se reporta às medidas de Adèle. O diretor se ocupa incansavelmente de buscá-las, mostrá-las, mas jamais decifrá-las. É um pouco como escreveu o crítico e cineasta Jacques Rivette também sobre o cinema de Hawks: um cinema do mundo aparente, onde “o que é, é”.

Um pouco como a cena abaixo, em que Adèle dança em sua festa de aniversário de 18 anos. O que se vê é esta mulher, menina, Adèle. Quanto às suas motivações, sentimentos, sentidos, quem pode imaginar? Temos a cena, a música, os movimentos – de Adèle e da câmera – para ver e sentir e pronto. É isto: um filme.

Sob essa perspectiva do mundo evidente de Hawks, há, por outro lado, um aspecto muito corajoso neste e em outros filmes de Abdellatif Kechiche. A França que aparece e que, portanto, é a França existe no cinema de Kechiche, é uma França da diversidade. Não é uma diversidade conciliadora senão fragmentária, mas também não é um lugar de conflitos sociais inescapáveis (como em “Entre os muros da escola”); tem algo do cinema de Claire Denis também, dos corpos e desejos em colisão e em desarranjo, circulando em um mundo em desarranjo.

O drama de Adèle se desenrola e circula (embora nunca colida) numa França ao mesmo tempo culta e diversa, mas tradicionalista, uma França de preconceitos, de imigrantes, de minorias, situados em uma Europa em crise. É também a primeira vez, que eu me lembre, que assisto a uma cena de passeata de jovens, na França, que não remete automaticamente ao Maio de 68.

A jornada de Adéle para se descobrir e afirmar é situada no mundo como ele está hoje, ou como vemos que ele está… Mas é esta jornada, e as imagens, e os closes, e os olhares e as nuances dessa jornada, que importam. O desafio de cada plano de Kechiche é que a vida de Adèle tome conta da tela. É como se o filme se perguntasse a todo instante, em vez de responder: quem é Adèle?

Neste ponto, é preciso voltar à polêmica das cenas de sexo: Kechiche foi acusado de machismo e voyeurismo por conta delas. Para pensar sobre essa acusação, seria interessante, à luz da reflexão do Inácio, lembrar também “da câmera a altura do homem” de Howard Hawks, nem acima e nem abaixo, e perguntar-se se, neste mundo em desarranjo, onde Adéle circula (e também nós) e onde o sexo segue estancado na expressão cinematográfica; “Azul é a cor mais quente” não vai no sentido inverso do voyeurismo barato e, na verdade, coloca a câmera (e portanto a estética, a ética e a política) a altura de uma mulher.

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