1. Jacquot de Nantes (1990, Agnès Varda)

1/10 Filmes de amor
Por Beatriz Macruz

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Agnès, Jacquot, Jacquot, Jacquot, e Demy.

Jacquot de Nantes é uma grande e peculiar declaração de amor.

Foi por sugestão de Jacques Demy, com quem era casada desde 1962, Agnès Varda decidiu dirigir este filme sobre a infância do marido nos arredores de Nantes, na França. Ela filmou a partir das lembranças e diários de Demy, enquanto o companheiro se encontrava em estágio terminal da doença que o levou a morte naquele mesmo ano, 1990.

Ela, porém, só revelou estes detalhes em seu filme As Praias de Agnès – sua impressionante e encantadora autobiografia, de 2008, que Varda declarou ser seu último filme, no qual ela afirma que amar o cinema foi também amar Jacques Demy.

Assim, Jacquot de Nantes, longe de ser um simples documentário biográfico, é mesmo um belíssimo filme de amor que não cabe em gênero algum, no qual a diretora se ocupa justamente daquilo que não viveu ao lado do marido, aquilo que não conhecia senão por relatos e pelos filmes de Demy.

O início de Jacquot de Nantes já nos situa dentro do cinema de Varda: o mar sempre presente, a câmera íntima dos seus objetos e personagens, a narração em primeira pessoa da diretora, que reflete sua entrega constante e impressionante a seus filmes e ao público. Vemos Jacques, velho e um pouco abatido, deitado e sorridente numa praia.

Varda nos mergulhará dentro deste homem na areia, no qual encontraremos o menino Jacquot. A partir daí ela faz um trabalho minuncioso de reconstituição da infância do companheiro, filmando lindamente as rotinas, cenários e caminhos de Jacquot, antes de tornar-se Jacques; reconstituindo seus passos até, durante a Segunda Guerra, ele se encontrar e apaixonar pelo cinema.

Em meio a esta narrativa que poderíamos chamar de ficcional, ou mesmo de reconstituição histórica/da memória, Agnès Varda introduz com humor pequenas reflexões e comentários pessoais em off, além cenas de diversos filmes de Demy; que surgem para nos lembrar que embora acompanhemos cronologicamente o crescimento do menino Jacquot, nós viemos pelo caminho inverso: partimos da arte para encontrar o ponto da vida e da memória no qual precisamente ela surgiu; no qual o cinema tomou conta de Jacquot.

Essa é mais uma característica comovente do cinema de Agnès Varda: o amor desbragado, escancarado, pela experiencia cinematográfica. Jacquot de Nantes está repleto dele, e pouco a pouco, desvendamos que o próprio Demy cresceu alimentando-se deste mesmo amor.

Se no início do filme a câmera de Agnès Varda vasculha a imagem mesmo de Jacques, chegando a escrutinar até mesmo a pele e os pêlos do companheiro, ao mergulhar naquelas memórias deconhecidas (porque não vividas por ela), a busca da diretora finalmente ganha a forma de um filme. E durante essa busca nos resta deixar-se levar de encontro ao cinema, que toma forma de memória, imagem, sonho e história; de amor, do mar e de um filme que vive para além de tudo isso.

Agnès Varda em cena de seu último filme, "As praias de Agnès"

Agnès Varda em cena de seu último filme, “As praias de Agnès”

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